Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
FOTOS LEGENDADAS (53, ATRAVESSAR O RIO DE JANGADA)

 

Naquele tempo, as estradas de Angola eram de terra batida

e havia rios sem pontes entre as margens. Chegava-se lá, podia ter-se a sorte

da jangada estar já espera — e era então meter aí a viatura, imobilizá-la com a caixa

de velocidades e o travão de mão, calçar-lhe bem as rodas e iniciar a travessia.

Muita gente temia que os cabos que puxavam a embarcação não aguentassem

o peso da carga e a força da corrente. Se rebentassem, seria o desastre...

Mas aguentavam felizmente, pelo que as pessoas podiam daí a pouco respirar de alívio

e continuar a viagem.

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)



publicado por Irdea às 07:13
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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
O PECADO DA GULA

 

 

A GULA(*)

 

 

1

 

COM OS OLHOS muito abertos, nos seus oitenta centímetros de altura, agarrado à mão do pai, Júlio fitou extasiado a montra da pastelaria. Parecia já gozar na boca o prazer de comer um daqueles bolos, todos eles brilhando à luz azulada do néon, uns cobertos de chantilly, outros de chocolate, uns rectangulares, outros redondos, com uma cereja cristalizada em cima, ou um morango, ou um montinho de pinhões.

O pai perguntou:

— Qual queres?

Júlio estendeu o dedo rechonchudo e apontou:

— O grande!

O pai não percebeu:

— O grande?! Mas qual?

Júlio explicou-se:

— Aquele ali, o maior!

A história correu a família. Nas semanas seguintes, não só a mãe, mas também os irmãos, os avós, os tios, os primos, até as criadas de casa, zom-baram da observação:

— Então o grande, hã? O maior?...

Júlio mostrou-se indiferente aos motejos. Pelo contrário, repetiu com veemência o que dissera, deixando bem claro que não tinha que se enver-gonhar da sua escolha:

— O grande, pois! A gente deve escolher sempre o maior!

Era ainda uma criança, mas a respeito de bolos e outros alimentos, sólidos ou líquidos, falava e procedia como um adulto. Mas um adulto boa-boca, que está sempre com apetite, capaz de devorar tudo o que vê pela frente.

Comendo como comia, tinha de engordar. E engordou realmente: tanto, tanto, que não havia fato que lhe ficasse bem, nem roupa que lhe servisse mais do que um mês.

Faces bochechudas, olhos papudos, barriga balofa, braços e pernas que nem travesseiros de cama, Júlio era a chacota dos colegas de escola, que o enchiam de alcunhas e lhe prodigalizavam insultos:

— Banhas!

— Saco de farinha!

— Bucha!

— Pançudo!

— Batoque!

Os pais não sabiam já o que fazer. Foram a dietistas, usaram até de castigos (três dias sem sopa nem sobremesa, nada de rebuçados, muito menos de bombons), mas em vão.

Sorrateiramente e sempre que podia, o filho entrava na despensa e vin-gava-se do jejum imposto: de ouvido atento para não ser surpreendido, prateleira a prateleira, caixa a caixa, boião a boião, dizimava tudo.

 

2

 

JÁ HOMEM FEITO, Júlio manteve o apetite voraz. Se François Rabelais fosse vivo, não precisaria de criar Gargantua e Pantagruel para representar comilões insaciáveis.

No tempo em que agarrava a mão do pai e fitava extasiado as montras das pastelarias, ele tinha ainda as suas preferências: gostava mais de doces do que de salgados, de carne do que de peixe, de refrigerantes do que de água. Essa espécie de critério do paladar foi desaparecendo ao longo dos anos; com a idade, os doces e os salgados, a carne e o peixe eram igualmente consumi-dos. E no que tocava às bebidas, se a água continuou preterida, os vinhos vieram engrossar as fontes...

Júlio bebia vinhos de qualquer espécie: brancos, tintos e palhetes, novos e velhos, de pasto e de marca, espumosos e licorosos. Tal como a sua fome, a sua sede não tinha fim. Aos copos, às taças, aos cálices, as garrafas esvaziavam-se e nunca eram suficientes. Nenhuma libação chegava para lhe sossegar a garganta.

Enquanto comia e bebia sem parar, Júlio cuidava de si. Só de si. Que andasse gente na rua esfomeada e sedenta a morrer à míngua, com os corpos esgrouviados que nem gravetos secos, isso não o perturbava nem lhe tirava o sono.

Todos os dias nos noticiários, a Televisão mostrava milhares de crianças em África, na Ásia e na América Latina sem acesso a uma côdea de pão, um copo de leite, mesmo um osso descarnado para roer. A Rádio confirmava a informação: faltavam bens essenciais em muitos países. Com pormenores acrescidos, a Imprensa referia quais: o Sudão, o Bangladesh, a Colômbia. E depois?... Sim, e depois?... Os governos é que tinham a obrigação de resolver o problema! Estavam lá para tal!

Para se alhear das imagens, das reportagens e das descrições, Júlio desligava os aparelhos e não comprava jornais.

Que havia de fazer? O mundo era assim. Fora e continuaria a ser sempre assim.

 

3

 

PESADÃO, GORDO e disforme, Júlio não encontrava mais cadeira onde se sentasse, cama onde se deitasse, porta por que passasse senão de esguelha. Sentava-se e deitava-se no chão, sobre oito almofadões que mandara fazer de propósito.

Ficava aí durante o dia inteiro: a comer e a beber. Se se sentia agoniado, levantava-se com esforço; a ofegar e a suar abundantemente, arrastava os pés até à casa de banho, onde metia os dedos na boca e vomitava na sanita. Voltava aos almofadões, voltava a comer, voltava a beber.

Ignorado ou desprezado pela família (facto a que dava pouca impor-tância), vivia sozinho. Só uma criada vinha pela manhã arrumar a casa e trazer da mercearia a ração sólida e líquida necessária até ao dia seguinte.

Chamava-se Eufrásia. Com um carrapito no cimo da cabeça, mangas da blusa arregaçadas, o avental de alças sobre a barriga, era desembaraçada e tagarela.

Costumava aconselhar:

— O senhor Júlio devia sair de casa, ir à rua, tomar ar. Sempre encafuado cá dentro não é bom...

Insistia:

— Vá!, vá!

Júlio reagia com enfado àqueles comentários, que considerava imper-tinentes.

— Qual rua, qual quê!... Estou muito bem aqui! Sair para quê?

Sem dar conta da irritação, Eufrásia tinha a resposta pronta:

— Para quê?! Ora essa! Para ver gente, conversar com os amigos!

Já agastado, rodando com lentidão o corpo imenso, Júlio virava-lhe as costas e encerrava de vez o assunto:

— Eu não tenho amigos!

Tinha razão. Se olhasse para trás e passasse em revista toda a sua vida, à excepção do pai, da mãe e dos irmãos (e estes só antes de se casarem com duas «lambisgóias »), amigos era coisa que nunca tivera. E de que nem sentia a falta.

Indiferente ou ligando muito pouco ao desagrado do patrão, Eufrásia voltava a aconselhar na manhã seguinte:

— Vá dar uma voltinha! Vá!, vá!

Júlio subia de tom:

— Caramba, mulher! Irra! Você é teimosa. Já lhe disse várias vezes que estou muito bem aqui!

 

***

 

Chegada a sua hora,

Júlio morreu

e foi para o Inferno

penar a sorte que mereceu.

 

De sorriso na boca

e tridente na mão,

o Diabo lhe esturrou o coração.

 

_____________

 

(*) Inácio Rebelo de Andrade

in Os Pecados do Diabo e as Virtudes de Deus, Novo Imbondeiro, Lisboa, 2008 (texto revisto pelo autor).



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Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (16)

 

A CONVIVÊNCIA É POSSÍVEL

 

Olá, como estás?




Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
INTROSPECÇÃO

 

 

A Origem de Mim

 

A origem de mim

sou eu

e o meu limite

é o céu

por mais gritos e ais

de mães e pais

que me queiram adoptar

ou guiar.

Se a psicanálise

fosse a autoestrada para todas as arrelias

as chegadas seriam sempre tardias.

 

José Filipe Rodrigues



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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
FOTOS LEGENDADAS (52, O PORTO DE LUANDA)

 

Era por aqui que quem vinha do Puto nos paquetes das Companhias Colonial ou Nacional

de Navegação entrava em Angola. Compreende-se por isso que o porto ficasse junto

do Largo Diogo Cão, chamado assim para homenagear o navegador português

que descobrira a Colónia no Século XV. Quem pisava aquele chão pela primeira vez,

também ele (ou ela) descobria algo de muito especial: uma terra acolhedora, cheia de luz,

de cor e de tamanho, que aprenderia a amar e nunca mais esqueceria.

Mesmo quando um dia tivesse de partir de lá para sempre.

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)



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Sábado, 30 de Janeiro de 2010
OS REFLUXOS DA HISTÓRIA

 

 

QUANDO O HAITI FOI

UM PARADIGMA DA LIBERDADE

  

Por:

Leonel Cosme

 

Não serão muitos os angolanos (e menos os portugueses) que, vendo hoje a onda de horror que arrasou o Haiti, reduzindo o seu povo ao grau zero do progresso da humanidade, sabem ou se lembram de que ele já constituiu um paradigma da luta de libertação dos negros escravizados de todo o mundo; e de que, em Angola, esse paradigma não só sensibilizou colonos excep-cionais, já no século XIX, como inspirou a geração de jovens intelectuais angolanos que, nos meados do século XX, fizeram da literatura um instru-mento da luta pela independência do seu país.

Faço daqui um convite aos curiosos e interessados para procurarem nas principais bibliotecas públicas um livro editado, em Lisboa, em 1880, inti-tulado, genericamente, A RAÇA NEGRA, da autoria de A. F. Nogueira, na altura sócio efectivo da Sociedade de Geografia de Lisboa, membro da Comissão da Exploração da África da mesma Sociedade. (A quem quiser saber mais sobre o que foi este colono excepcional, António Francisco Nogueira, de nome completo, saído do Brasil, em 1850, para o distrito de Moçâmedes, sugiro a leitura do meu ensaio Muitas são as Africas, Novo Imbondeiro, 2006).

Naquela época, focando a marcha progressiva dos povos negros, já independentes, da Libéria e do Haiti, considerava Nogueira, “pode dizer-se com verdade que os Negros têem desmentido a asserção dos pedantes ethnologos, que alegando a sua natural inferioridade, os declaram incapazes de cuidarem de si mesmos.” E centra o seu arrazoado, — que contestava também as teorias racistas de proeminentes africanólogos portugueses — no progresso verificado no Haiti, desde a proclamação da independência do domínio francês, em 1804, pelo general haitiano Toussaint Louverture.

Nogueira conta pormenorizadamente a história do novo país (hoje é ligeiramente repetida nas enciclopédias), desde que, em 1492, ali aportou Cristóvão Colombo, ocupando o território habitado por uma “raça caraíba, que os hespanhoes destruíram apesar do bem que os tinha recebido, substituindo-a por Negros d’Africa, importados como escravos, e que eram mais vigorosos e trabalhadores.”

Jorge Luís Borges, logo no primeiro parágrafo do seu livro de crónicas irónicas História Universal da Infâmia (1935) reza assim sobre os primórdios da ocupação do Haiti pelos colonizadores espanhóis:

Em 1517, o padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das An-tilhas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos factos infinitos. Enume-ra-os, na mesma toada irónica, terminando a lista com o napoleonismo corajoso e encarcerado de Toussaint Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pela catana do papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe.

Meio século atrás, Nogueira registava que em Port-au-Prince já existia um conservatório, uma escola de Medicina, diversos estabelecimentos de instrução secundária, que o seu comércio era considerável e positivas as finanças públicas. Desta e doutras verificações, ele parte para o desempenho da colonização portuguesa: “E não nos impressiona a objecção de que civilisar os indígenas das nossas possessões d’Africa é o mesmo que eman-cipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar — e esse é o destino de todas as colónias —, que devemos preferir: conserval-a estéril e improductiva como até agora, ou convertel-a em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civi-lisação e dos costumes?”

Como é imaginável, este excepcional colono, autodidacta formado certa-mente no tempo em que viveu em Pernambuco, ainda numa época de plena escravatura dos negros levados de África para as minas, engenhos e planta-ções, fazia o contraponto da política colonial portuguesa vigente.

Pois o Haiti e outros territórios das Antilhas colonizados por espanhóis, holandeses, franceses, ingleses e norte-americanos, como Cuba, Martinica, Jamaica e Guiana, assumir-se-iam, no início do século XX, como faróis da luta dos negros de todo o mundo pela dignificação da Raça escravizada e oprimida durante quatro séculos, cujas vozes se fizeram ouvir em livros, revistas e congressos da América, de África e da Europa. Entre as primeiras, nenhum estudioso das literaturas do chamado Terceiro Mundo ignora quem foi Nicolás Guillén, de Cuba, Aimé Césaire e Frantz Fanon, da Martinica, Carlos Moore, da Jamaica, Léon Damas e René Maran, da Guiana, e Jacques Roumain e Jean Price-Mars, do Haiti.

A essas vozes se juntaram as de outros negros e mestiços das colónias de África (lembremos apenas a de Leopold Sédar Senghor, do Senegal, a mais audível na época, e no que toca a Angola, a de Agostinho Neto e Viriato da Cruz, já na segunda metade do século XX). Viriato evoca mesmo o libertador do Haiti, Toussaint, a par do Zumbi brasileiro, no seu poema Mamã Negra (Canto de Esperança), de 1961, e Neto já evocava Bamako, um poema feito depois da conferência panafricana realizada na capital do Mali, em 1954.

Refira-se que esta conferência antecedeu a que se realizaria, no ano seguinte, em Bandung (Java), reunindo 29 congressistas da África e Ásia. Foi denominada Conferência dos Povos Não Alinhados (só não participaram representantes de Israel, Coreia e África do Sul). Foi esta a primeira confe-rência dos países do Terceiro Mundo, na qual se exigiu a independência dos povos oprimidos e o respeito pelos direitos do homem. Presidida pelo pri-meiro-ministro da Índia, Nehru, pode compreender-se que foi a realização deste conclave que encorajou as primeiras investidas dos indianos contra a colónia portuguesa de Goa.

Nesse mesmo ano, numa palestra realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, para encerramento da Semana do Ultramar, Adriano Moreira clas-sificava Nehru, promotor da Conferência dos Não Alinhados, como “um velho e ressentido adversário da presença da raça branca na África e na Ásia”, sustentando que “condenar todo e qualquer colonialismo, quer o colonialis-mo espaço-vital, quer o colonialismo missionário, é evidentemente uma po-sição racista contra os brancos, porque é justamente a presença dos brancos que terá de fazer-se terminar, para executar tal princípio.”

Hoje, vendo a pobreza e a desgraça de um Haiti que deu ouro, diamantes, açúcar, algodão, tabaco e madeiras nobres à América e à Europa, contra si próprio e a favor de alguns, devemos pensar, a par dos louváveis impulsos emocionais, que toda a ajuda a dispensar ao seu povo de maioria negra e mestiça e de minoria branca é um imperativo da consciência da Humanidade face à Natureza e à História.

Leonel Cosme



publicado por Irdea às 16:11
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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (15)

 

À MANEIRA DOS AVIÕES

 

Levantar voo.



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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
FOTOS LEGENDADAS (51, A IGREJA DO PADRE MOUTINHO EM NOVA LISBOA)

 

Com muitas esmolas dos fiéis e de quem apanhava a jeito, o Padre Moutinho

conseguiu erguer em Nova Lisboa uma igreja em honra de Nossa Senhora de Fátima.

A obra resultou tanto da sua persistência que alguns paroquianos a chamavam,

não «de Igreja de Nossa Senhora de Fátima», mas «de Igreja do Padre Moutinho».

Nos dias 13 de Maio, o sacerdote entusiasmava-se com o número elevado de doentes

que imploravam aí por uma cura milagrosa. Durante a homilia, sem medir talvez as palavras,

confessava com voz embargada que se alegrava por ver como esse número

crescia todos os anos. Daí repetir: «Ainda bem!, ainda bem!...»

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)



publicado por Irdea às 07:22
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Sábado, 23 de Janeiro de 2010
DICIONÁRIO / LETRA L, 2ª Série

 

L, de Labirinto

 

Labirinto: estrutura composta por caminhos diversos que se cruzam de tal forma que é difícil encontrar a saída. Os que entram lá inadver-tidamente podem perder-se e ficar condenados a permanecer aí para sempre. Quem ignora que há labirintos da alma e do corpo, como o da infelicidade, o da solidão, o da pobreza, o da fome (a série é extensa), de onde é realmente difícil sair? Labirintos que são corre-dores longos e escuros, sem uma luz que brilhe, que tremule, mesmo que bruxuleie, de modo a permitir àqueles que os percorrem saber por onde seguem e para onde vão...



publicado por Irdea às 07:48
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (14)

 

TRAZIDA PELO MAR

 

A viagem foi demorada, mas chegou ao fim.



publicado por Irdea às 00:02
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
ESTÁ ATENTO...

 

 

A Possibilidade de Voar

 

Não reveles essa possibilidade de voar

porque a inveja pode arrancar-te as penas

que dão corpo às tuas asas.

Surpreende-os com essa capacidade

porque quando te virem lá no alto

incapazes de te acompanharem na elevação

o único comportamento será de admiração.

 

José Filipe Rodrigues



publicado por Irdea às 07:58
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Sábado, 16 de Janeiro de 2010
O PECADO DA AVAREZA

 

 

A AVAREZA(*)

  

1

 

PELA QUARTA VEZ, Isaura contou as peças de ouro que guardava no cofre:

— Trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete, trinta e oito...

Caramba!, não chegavam sequer a quarenta. Depois de tanto sacrifício e tanta privação, de cortar na comida, na roupa e no conforto da casa, continuava pobre... Tinha de cortar mais, muito mais, se queria de facto juntar o seu pé-de-meia!

Isaura começava todas as manhãs desta maneira: a contar e a recontar as moedas que amealhara. Ainda o sol entrava a medo pelas janelas do quarto, onde a cama de ferro, o toucador de pinho, um armário de portas descon-juntadas e um espelho fosco pelos anos eram todo o mobiliário existente; ainda o sol andava a dissolver na quadra o negrume da noite, já ela estava sentada com o cofre assente nas pernas, repetindo a contagem:

— Trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete, trinta e oito...

Com os cabelos grisalhos, as faces chupadas, o tronco dobrado sobre a caixa onde escondia o seu tesouro, parecia mais velha do que era. Teria quê? Sessenta anos? Setenta? Era difícil avaliar. Talvez menos: talvez cinquenta, talvez quarenta.

Também como em todas as manhãs, sentia-se agoniada àquela hora: uma aguadilha na boca, um vómito que subia pela garganta, um mal-estar que a tomava da cabeça aos pés e lhe eriçava a pele.

Com o xaile esfiapado sobre os ombros, Isaura não sabia bem se essa indisposição se devia a alguma enfermidade, ou à fome que passava, ou ao desgosto de não ter conseguido até aí atingir a quantia desejada.

Mas que quantia? O valor variara ao longo dos anos: quando tivera cinco, quisera dez; quando tivera dez, quisera vinte; quando tivera vinte, quisera trinta; agora que tinha trinta e oito, queria quarenta.

Ouvia a voz da mãe sumida no passado longínquo, a modos de um murmúrio, sentenciando constantemente:

— É uma pena. Nunca estás contente com o que tens. Queres mais, sempre mais!

Aconselhava:

— Não sejas assim.

Mas fora e continuava a ser; como a mãe dizia repetidamente, ela queria mais, sempre mais.

 

2

 

NÃO CASARA, nem sequer namorara.

Casar para quê? Para repartir os seus bens com outra pessoa? A ideia de que o que tinha era sempre pouco, impossível pois de dividir com os outros (mesmo com o marido, mesmo com os filhos), atormentara-a desde a juven-tude. Uma espécie de medo, quase de pavor, de compartilhar com alguém qualquer coisa: uma boneca, uma fita de cabelo, um lápis, mesmo um alfi-nete, que ela garantia alto e bom som «São meus! São meus! São meus!».

Os pais viam com desgosto que a filha não tinha amigas. Que nem as colegas de escola pareciam dispostas a aturar aquela obsessão.

Perguntavam:

— Não tens pena?

Isaura respondia firmemente que não. E era sincera, porque ter amigas por perto representava o risco de vê-las pegar e mexer nas suas coisas... E isso nunca! Nunca!!!

— Não, não tenho pena.

Acrescentava:

— Eu até prefiro.

Quando os pais morreram, Isaura ficou sozinha em casa. Começou então a imaginar esconderijos para guardar aquilo que considerava mais valioso. Foi assim que arranjou o cofre para pôr as moedas de ouro, a cómoda de gavetas para os lençóis de linho ainda por estrear, o armário de alçado para a baixela de porcelana nunca tirada das prateleiras, as caixinhas de prata para os colares, os brincos, os anéis, os broches com que jamais se enfeitara.

O seu prazer quotidiano não era usar essas preciosidades, mas passar as mãos por elas, uma por uma, como quem afaga o que lhe é querido: passar os dedos esguios por cada peça, devagar e suavemente, gozando a volúpia do contacto; passar uma vez, duas, três, tantas quantas as necessárias, até se convencer de que tudo continuava lá, no sítio certo, e de que continuava seguro.

Como concluía para as moedas, concluía para o resto: que era pouco, muito pouco; que era parco e insuficiente. Quando é que ficaria comple-tamente satisfeita?

Outra vez a agonia habitual, a aguadilha na boca, o vómito que subia pela garganta, o mal-estar que a tomava da cabeça aos pés e lhe eriçava a pele.

 

3

 

ISAURA ENVELHECIA, e a sua desconfiança aumentava com a idade. Metida em casa dia e noite, suspeitava de toda a gente, especialmente dos vizinhos, que não cumprimentava sequer. Vivia no temor de que eles me-tessem conversa, a visitassem depois e lhe descobrissem então o que estava guardado...

Até Laurinda, uma rapariga enfezada que recebia uma miséria por ir aos sábados varrer as salas onde podia entrar; até ela, que precisava desse dinheiro para aviar na farmácia os remédios para a sua tísica, até ela deixou de vir.

Uma tarde, olhara com admiração duas travessas de cabelo em tartaruga abandonadas no sofá. Isaura estava atenta e deu logo pelo facto.

Fora o bastante. Não!, não!, aquela menina não voltaria ali. Trazia a cobiça estampada nos olhos... Era o que faltava! Andor! Andor!

Laurinda foi despedida.

Perguntara ainda:

— Porquê?

— Porquê?! Ora essa! Porque sim! Eu é que sei quem quero aqui!

Se a casa era antes um desleixo, piorou desde esse dia. O pó acumulava-se nos móveis, o cheiro das pias por lavar to­mava conta de todas as dependências, os pavimentos cobriam-se de crostas e detritos. Permanen-temente fechadas, as janelas não deixavam entrar o ar da rua. Uma imundície, um chiqueiro.

Isaura não dava por isso. Ou se dava, desmerecia o facto. Sempre muito cedo, levantava-se e começava a contar as moedas:

— Duzentas e vinte, duzentas e vinte e uma, duzentas e vinte e duas, duzentas e vinte e três...

Comia cada vez menos, para poupar; melhor talvez, para amealhar, comprar outros brincos, outro anel, outro broche.

Uma côdea de pão, uma peça de fruta, um caldo de sopa, não importava o quê, era tomado ao meio, metade ao almoço, metade ao jantar.

Com o espelho da casa de banho rachado de cima a baixo, ela não conseguia já perceber como estava um caco: as faces chupadas, as orelhas e o nariz mirrados, os dentes aflorando amarelos sob os lábios, os braços secos que nem garranchos, o corpo inteiro espremido pelo jejum continuado.

Que importava isso, se ao fim de um mês, ou de dois, ou de três, podia ir à ourivesaria do senhor Felisberto e trazer de lá outra jóia? A comida comia-se; no dia seguinte, nada sobrava, ou o que sobrava desaparecia pela sanita, sem deixar rasto... Que esbanjamento!, que desperdício!

 

***

 

Chegada a sua hora,

Isaura morreu

e foi para o Inferno

penar a sorte que mereceu.

 

De sorriso na boca

e tridente na mão,

o Diabo lhe esturrou o coração.

 

_____________

 

(*)Inácio Rebelo de Andrade

in Os Pecados do Diabo e as Virtudes de Deus, Novo Imbondeiro, Lisboa, 2008 (texto revisto pelo autor).



publicado por Irdea às 08:03
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
FOTOS LEGENDADAS (50, INSELBERGS)

 

Inselbergs significa «montes ilhas», termo introduzido na Geologia pelo alemão

Bergassor Bornhardt para significar montanhas pré-cambrianas, geralmente monolíticas,

de gnaisse e granito, abruptamente emersas da superfície onde afloraram.

Palavras arrevesadas para referir os impressionantes e enormíssimos penedos que

surgem em algumas paisagens africanas. E não apenas aí, conforme os tratados garantem.

Povoações como a do Lépi, no Planalto Central de Angola, nasceram e cresceram junto

de tais colossos; coladas a tão permanentes e fiéis guardiões, pareciam assim

querer proteger-se dos perigos que rondavam por perto...

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)



publicado por Irdea às 07:38
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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (13)

 

VAIDOSA

 

Logo pela manhã, assim que haja sol,

a montanha gosta de se mirar ao espelho.



publicado por Irdea às 08:29
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Sábado, 9 de Janeiro de 2010
UMA QUESTÃO DE PRIORIDADES

 

 

As Galinhas de Aviário

 

por:

José Filipe Rodrigues

 

As cerimónias de graduação escolar aqui nos USA por vezes padecem de um protocolo exageradamente fútil, principalmente no que se refere a raparigas. Ele são limosines. Ele são vestidos compridos do tipo Hollywood. Ele são sapatos altos do tamanho da torre Eiffel. Ele são penteados que desafiariam o Nicolau Tolentino a ser ainda mais sarcástico. Ele são pinturas faciais que conduziriam os construtores civis à bancarrota. Ele são perfumes que os fabricantes de insecticidas serão incapazes de imitar para repelir moscas e mosquitos. Ele são...  Ele são... Ele são... e ainda mais ele são...

O ano passado, a rapariga cá de casa graduou na Escola Média, integrada num grupo muito numeroso de jovens do sistema escolar desta pequena portugalândia. As galinhas de aviário iniciaram a preparação do ritual, para as suas frangas, com muita antecedência. Na realidade, as descrições que faziam na preparação do ritual não eram muito exageradas mas, também é verdade, foram bastante dispendiosas.

Quando chegou o dia da graduação, lá fomos nós com a rapariga, monta-dos na nossa motoreta, que ainda tem as quatro rodas intactas, para o auditório do Durffee. Chegados ao auditório do liceu, observando alguns exemplares daquela passagem de modelos, fiquei na dúvida se estaria a assistir à cerimó-nia de entrega dos óscares, na Califórnia, ou a um espectáculo carnavalesco de Nova Orleães.

Quando se iniciou o espectáculo, lá vieram os habituais discursos de homenagem aos antigos estudantes falecidos, a exaltação dos que se tornaram famosos, e o louvor aos que nesse ano conseguiram ser bem sucedidos na evolução para o High School.

A minha deformação ou formação profissional levou-me a ficar assustado quando observei muitas das raparigas, enquanto caminhavam para receberem os diplomas. Estarão alcoolizadas? Perguntei a mim mesmo. Não, certamente não. Coitadas, devem ser deficientes, concluí eu, nesta minha maneira de ser precipitado nos meus julgamentos. Graças à sorte e ao destino, a nossa rapa-riga caminhava normalmente, sem qualquer hesitação ou desiquilíbrio. Rapi-damente concluí que não se tratava de uma pandemia e que o cálculo das probabilidades tornaria impossível a existência de um tão elevado número de jovens deficientes. Só poderia ser dos sapatos altos. Este distanciamento social, em muitas situações, está a transformar-me num ignorante precipitado.

Finda a cerimónia, enquanto algumas famílias se deslocavam para a continuação das comemorações, em limousines alugados ou em carros quase transparentes de tanto lustro e verniz, nós regressámos a casa, montados na nossa motoreta. Adiámos a continuação das comemorações para o fim de semana, porque o dia seguinte era de trabalho para os adultos.

Alguns dias após o evento, as colegas e conhecidas da minha companheira ainda gabavam a grandiosidade da cerimónia de graduação. Quando questio-naram a minha Maria acerca das características que distingiam a rapariga cá de casa, aguardavam uma descrição do vestido, do penteado, ou dos sapatos que ela usara. A mãe das minhas crianças respondeu:

— A minha filha é aquela que recebeu a maior parte dos diplomas de melhor aluna nas diferentes disciplinas e o diploma de melhor estudante do sistema escolar.

As galinhas de aviário não prestaram atenção a esses pormenores tão pouco relevantes. Elas não ficaram a saber quem é a nossa rapariga.

 

José Filipe Rodrigues, Fall River, MA, U.S.A.



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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
NESSES ANOS RECUADOS DE 1957

 

 

 APRENDER A LER E A ESCREVER NO ANDULO(*)

 

Em 1957, o Andulo perdera bastante da incipiência inicial. Continuava uma vila de dimensão e importância reduzidas, mas crescera, desdobrando-se numa avenida principal e em algumas ruas adjacentes, que eram ladeadas agora, não apenas por estabelecimentos comerciais, mas também por mora-dias particulares e edifícios públicos. Uma igreja, uma escola, um clube de futebol, um hotel, um parque infantil e dois ou três jardins, bastavam só por si para encher de orgulho os seus habitantes.

Os que haviam acompanhado de perto esse desenvolvimento, gente que vinha do tempo da fundação, comentavam o facto com algum exagero:

— Isto parece já uma cidade!

Entusiasmavam-se:

— Cresce de ano para ano e há-de ir longe!...

Exageravam realmente, mas a verdade, a verdade é que a vila de 1920 e o Andulo de trinta e sete anos depois eram bem diferentes. Se o burgo seria ou não promovido a cidade, se teria ou não um futuro promissor à frente, para recorrer às palavras dos fundadores, isso era algo de há muito desejado, mas ainda por confirmar.

Tal como os outros pais no princípio de cada ano lectivo, Abel foi de lis-ta na mão ao «A. Gouveia L.da», onde encomendou um livro de leitura, uma tabuada, uma lousa, cadernos de linhas, lápis de carvão e de cores, uma bor-racha, uma caneta de aparo, um tinteiro, tudo o que o filho precisaria para entrar na escola.

Vindo de Silva Porto como de costume, o material chegou uma semana mais tarde, e Ernesto ficou então a saber que com isso (com «essas coisas», como o pai referiu) iria começar a aprender a ser homem.

Abel pegou no livro de leitura, abriu numa página ao acaso e observou:

— É aqui que aprenderás a ler.

Depois nos cadernos de linhas:

— E aqui a escrever, a apurar a letra, a não dar erros.

Por fim na tabuada:

— E aqui a fazer contas.

Pôs o livro, os cadernos e a tabuada uns por cima dos outros, concluindo:

— Aproveita o dinheiro que gastei, puxa por essa cabeça e vê lá se estudas.

Perguntou:

— Percebeste?

Ernesto baixou a cabeça, mostrando que percebera, e alguns dias mais tarde, de sacola de serapilheira ao ombro, com todo o material lá dentro, subiu para a carrinha, sentou-se ao lado de Sapalo Jeremias e foi para a escola.

Repetiria essa viagem muitas e muitas vezes ao longo dos quatro anos seguintes, em que passaria da 1ª para a 2ª, da 2ª para a 3ª, da 3ª para a 4ª Classe. Exceptuando os sábados e os domingos, bem como os períodos de férias, repetiria esse trajecto todos os dias, mas nunca tão emocionado como nessa manhã.

Ia nervoso, tentado imaginar o que iria encontrar. E sobretudo defrontar.

O que encontrou e defrontou de facto foi um edifício que parecia enorme, com varandas nas traseiras, onde as professoras Alda Morais e Luísa Amaral, cada uma na sua sala, leccionavam turmas de trinta a quarenta alunos.

Sapalo Jeremias parou a carrinha, apontou o edifício e disse:

— Pode descer. É para ali que tem de ir, é a sua escola.

Ernesto obedeceu e foi.

Em frente da secretária de madeira maciça, com um mata-borrão verde por cima coberto por um vidro grosso, a professora Luísa Amaral ia con-vidando:

— Entrem, meninos, entrem, façam favor.

Era uma mulher de estatura mediana, cabelos castanhos curtos, ar austero como convinha ao magistério. De vara de bambu na mão, parecia estar com pressa:

— Entrem, entrem e fechem a porta.

Ernesto sentou-se na carteira, pôs a sacola de serapilheira sobre o tampo, olhou demoradamente à volta: primeiro para o quadro-preto, depois para as janelas que davam para a rua, por fim para os colegas que tinha ao lado, também eles incapazes de esconder o seu nervosismo e o seu receio.

Sempre de pé em frente da secretária, Luísa Amaral insistia:

— Entrem, meninos, entrem.

 

__________

(*)Inácio Rebelo de Andrade

in O Pecado Maior de Abel (romance), Edições Colibri, Lisboa, 2009




Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (12)

 

À HORA DA SESTA

 

Estou com tanto sono!!!



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Sábado, 2 de Janeiro de 2010
FOTOS LEGENDADAS (49, PLANTAÇÕES DE SISAL)

 

Quem seguia de automóvel do Planalto Central para o Lobito, se atendesse ao que

havia à beira de alguns troços da estrada, podia ver fazendas de plantações de sisal.

Era no tempo em que os produtos sintéticos não existiam ainda e as fibras

dessa planta permitiam tecer fios e cordas usados para prender muitas coisas.

Até os paquetes aos cais. Tal como o café, o sisal era exportado, possibilitando

a entrada de divisas na Colónia. Com isso, enchia de lombongo os bolsos

dos fazendeiros. E de suor os corpos dos negros, porque eram eles

que labutavam no cultivo e nos granjeios do solo.

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)



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Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
2010 CHEGOU!!!

 

 

Saudemos o Ano Novo

 com uma taça de champanhe!!!



publicado por Irdea às 00:57
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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
SIMPLESMENTE, BOAS FESTAS

 

 

Simplesmente, Boas Festas 2009-2010 !

  

Desejar BOAS FESTAS, envolvendo NATAL e ANO NOVO, à primeira vista, parece banal, como se nos limitássemos a dizer “Bom Dia” ao en-contrarmos o vizinho, ou “Muito Obrigado” a um qualquer transeunte pela informação horária do autocarro.

Mas atentando melhor, não é tão pouco como possa aparentar. Se não, vejamos.

 Já em plenas vésperas destas Festas, num simples cumprimento de oca-sião, ao despedir-se, alguém deixava o voto tornado corrente: Bom Natal na companhia dos seus familiares.

Parecendo tão pouco, era excessivo, para não dizer impraticável, perante a realidade de oito horas de fusos horários separando-nos do Nuno e da Tini, lá longe no Noroeste dos Estados Unidos da América, debruçados sobre o Pacífico.

E se incluirmos em NATAL os votos genéricos, que, de uma forma ou doutra, quase todos referem, de saúde, felicidade, alegria e bem-estar, rapi-damente compreenderemos que o cabaz começa a transbordar, pois pare-cendo pedir o trivial, logo verificamos que já estamos a querer a plenitude.

 Se, em vez de nos atermos ao Natal, incluirmos todo o Ano de 2010, então será querer a fortuna nas mãos cheias, dia após dia, um calendário inteiro.

Não tendo coragem para desejar tanto, imaginámos que, em vez de votos tão abrangentes, poderíamos começar por algumas minudências mais aces-síveis, como mantermo-nos vivos, haver pão à mesa, ar saudável para respirar, duas telhas de abrigo, uma malga ao deitar, alguém do outro lado da linha, uma ternura na voz, um afago no olhar.

 Parámos logo, porque os braços há muito que não agarravam tanto e o coração já estava a aventurar-se para além do horizonte visível. Não faltaria nada e já estaria a sonhar com solidariedade e até com o amor.

 Por isso, pelo sim pelo não, neste tempo de “Natal-Novo Ano-Reis” vamos contentar-nos em desejar, Lena e Esaú, simplesmente, Boas Festas 2009-2010 !

E que cada um meta lá dentro o infinito do seu coração.

Assim, ficaremos com a certeza de que não estaremos a pedir o impos-sível, nem a desejar, como essencial e imprescindível, algo de que alguém possa prescindir ou colocar noutra ordem de prioridades. Eis os Nossos Votos:

Simplesmente, Boas Festas 2009-2010 !

 

Dezembro 2009 – Janeiro 2010 - Esaú Dinis e Helena Mendes




Domingo, 27 de Dezembro de 2009
OS FRUTOS DO CÉU...

 

 

Frutos do céu

 

Os frutos do céu

não são

para quem orienta o olhar

pró chão.

 

José Filipe Rodrigues



publicado por Irdea às 07:23
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Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (11)

 

TAL COMO OS HOMENS

 

Um beijo ao luar.



publicado por Irdea às 07:02
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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
BOAS FESTAS!!!

 

O NATAL ESTÁ A CHEGAR!!!

 

 

Boas Festas para todos os leitores deste blog,

 

são os votos amigos do Inácio Rebelo de Andrade



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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
CAMELOS COM K E ACENTO CIRCUNFLEXO

 

Num baú onde guardo papéis e outras recordações que trouxe de Angola, encontrei há dias um postal do meu querido amigo Ernesto Lara Filho, datado de 30 de Março (ou de Maio?) de 1973. Com o seu sarcasmo habitual, tro-cando letras e acentos, o poeta e jornalista de talento invulgar confirmava o que alguns pareciam pôr em dúvida...

 

Inácio Rebelo de Andrade

 

  

 




Domingo, 20 de Dezembro de 2009
FOTOS LEGENDADAS (48, UMA «CUCA» À PRESSÃO)

 

Antes dela, quem tivesse sede nos dias quentes de Fevereiro teria de ir até às

esplanadas e pedir aí uma «Laurentina», a cerveja que chegava de

Lourenço Marques em garrafas enormes. Os angolanos tinham chipurulo (ou seja, inveja)

dos moçambicanos, que fabricavam em casa o líquido loiro e espumante

capaz de acalmar as gargantas nas horas de brasa.

Depois, lá para meados da década de 50, a «Cuca» veio, e a gente pôde regalar-se

finalmente com a produção da terra, tão refrescante, tão saborosa, tão cheia de picos,

que fez esquecer depressa a congénere da Outra Costa.

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)




Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
A PROPÓSITO DESTA QUADRA

 

 

 UM NATAL DIFERENTE (*)

 

 

1

 

Era sempre assim todos os anos: entre os dias 19 e 20 de Dezembro, Dona Maria da Glória mandava tirar do sótão a caixa de papelão e começava a armar a árvore de Natal.

Num vaso de lata forrado de papel dourado, punha alguns pedregulhos do quintal, que cobria de musgo verde. Com as precauções necessárias, metia aí o tronco do pinheirinho comprado na véspera. Escolhia sempre para lugar de instalação o canto direito da sala de jantar, mesmo junto ao móvel de alçado, que ficava em frente da porta de entrada.

Dona Maria da Glória tinha as suas regras para o cumprimento daquela tarefa, de que não abdicava: primeiro, enrolava à volta a serpentina eléctrica de lâmpadas de muitas cores; depois, pendurava as bolas de vidro nos ramos mais resistentes; a seguir, com o pulverizador, espalhava sobre tudo nuvens de neve artificial; por fim, como remate indispensável, prendia na ponta do fuste a estrela prateada de cinco pontas, que tinha no centro uma roseta ver-melha.

Quando acabava, limpo o soalho das sobras do arranjo, já com as luzes a piscar, chamava os filhos.

Eles vinham: a Rita Mafalda, o Rui, o Gonçalo e a Maria de Lurdes.

Pequenina nos seus quatro anos, os olhos negros de azeviche, as tranças da mesma cor, Maria de Lurdes, que todos lá em casa tratavam por Milu, era quem se entusiasmava mais. Batia as palmas e não resistia à tentação de exclamar:

— Tão linda, mãe! Tão linda que está!

Virava-se então para Gonçalo e comentava:

— Pronto! O Pai Natal já pode vir. Já tem sítio para pôr os brinquedos.

Ao fim da tarde, quando chegava do emprego, o pai, Fernando Silveira, fa-zia também um comentário elogioso:

— Está bonita. A árvore ficou muito bonita.

Milu concordava, acenando com a cabeça:

— Pois ficou, pai. Ficou melhor do que no ano passado.

 

2

 

A mãe de Dona Maria da Glória vivia também ali. Chamava-se Joana, mas só para os estranhos, porque em casa, ou a tratavam por «mãe Joana», como faziam a filha e o genro, ou por «avó Joaninha», como faziam os netos.

Este diminutivo carinhoso devia-se ao facto da velha senhora revelar uma tolerância sem limites para com as travessuras de Maria de Lurdes e dos irmãos — sobretudo para com Milu, por quem tinha uma afeição especial. Era uma predilecção que ela não conseguia esconder, mesmo quando garantia que não tinha preferências, porque gostava dos quatro da mesma maneira.

Com quase oitenta e cinco anos, Dona Joana estava agora muito doente. Com uma cirrose hepática, desenganada dos médicos, passava os dias intei-ros na cama, a gemer cheia de dores. Padecia tanto que metia dó.

Dona Maria da Glória sabia que a mãe ia durar pouco tempo, que se aproximava do fim. Católica praticante, preparava-se com fé e resignação para essa hora difícil, se é que alguém se pode preparar para um desgosto tão grande.

Dona Joana morreu em meados de Novembro, ao princípio da madrugada, depois de uma noite longa de sofrimento. Os netos foram avisados do suce-dido às oito horas da manhã — e vieram encontrar a avó já vestida como quem vai para a missa: o véu de tule sobre a cabeça, as mãos cruzadas sobre o ventre, apertando o terço de caroços de azeitonas, muito direita e muito quie-ta. Vieram quatro homens desconhecidos, que pegaram nela, a meteram num caixão e a levaram do quarto.

Milu e os irmãos choraram o dia inteiro. E choraram também nos dias seguintes, revoltados contra aquela perda imensa e definitiva.

Dona Maria da Glória e o marido vestiram-se de preto. Chamaram os filhos e todos decidiram em conjunto que o Natal desse ano não seria igual aos outros. Acabavam de perder um ente querido — e precisariam de tempo, pelo menos de alguns meses, para regressar à vida normal.

 

3

 

O tempo cura de facto todas as feridas, mesmo as da alma.

Algumas semanas mais tarde, ninguém em casa voltara ainda à vida nor-mal, mas a família havia já conseguido deixar de falar obsessivamente de Dona Joana e da sua morte tão difícil.

Só Milu dava mostras de não se conformar. Deixara de chorar, mas não perdera aquela tristeza estampada no rosto, sobretudo nos olhos, que pare-ciam agora ainda mais negros, mais fundos, mas sem o brilho de antigamente. Só Milu dava mostras de não aceitar a partida da «avó Joaninha», que estaria talvez a contar alguma história a um anjinho do Céu... Ou, se calhar, a falar com Nossa Senhora...

Dona Maria da Glória começou a preocupar-se com o estado da filha. Com algum esforço, porque se sentia também desgostosa, tentou distraí-la com jogos e pantominas, encheu-a de rebuçados e guloseimas, comprou-lhe uma boneca nova, daquelas que falam e reviram os olhos.

Milu não reagia. Ficava indiferente às momices da mãe, nada a interes-sava, nada lhe arrancava do peito aquela saudade sem fim.

 

4

 

O Natal chegou nesse ano sem árvore na sala de jantar. A caixa de papelão ficou no sótão, com a serpentina eléctrica, as bolas de vidro, a estrela de cinco pontas.

A noite de 24 não foi como costumava ser: não teve figos e nozes à mesa, nem bacalhau cozido ao jantar, nem velas vermelhas nos castiçais — tal como se decidira, foi uma noite sem consoada. Às dez horas, toda a gente estava na cama.

Milu acordou cedo nessa manhã. Ouviu alguém na cozinha a preparar o pequeno-almoço. Ouviu o barulho dos talheres, das chávenas pousadas sobre os pires, o silvo da máquina de café. Era a mãe certamente na lida habitual.

Levantou-se devagar. Esfregou os olhos com as costas das mãos, bocejou duas ou três vezes. Ainda estremunhada, arrastando os pés pelo tapete, resolveu ir dar uma ajuda.

Antes de atravessar a porta do quarto, estacou. Não queria acreditar: no cadeirão do canto, num cesto de verga, com o focinho de fora, laço amarelo ao pescoço, um cachorro pekinois começava a ganir. Levado de madrugada para ali, ele parecia também acordar naquele momento.

Milu entusiasmou-se. Pegou no cachorro, aconchegou-o ao peito, fez-lhe festas (muitas!, muitas!), enquanto dizia:

— Meu pequenino! Estás com frio? Tens fome? Coitadinho! Meu pe-quenino!

Os pais chegaram nesse momento. Olharam contentes um para o outro, dando agora por bem empregue a exorbitância paga na véspera à dona do canil.

Ao fim de quase dois meses, Milu parecia animar-se outra vez. Com o pekinois ao colo, sorria de novo.

 

__________

(*) Inácio Rebelo de Andrade, pré-publicação, a incluir no livro Quando as Rolas Deixam de Arrulhar.



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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
A MENINA ROSITA

 

«A menina Rosita», acrílico de José Filipe Rodrigues



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Sábado, 12 de Dezembro de 2009
DICIONÁRIO / LETRA K, 2ª Série

 

K, de Ketchup

 

Ketchup: grafado mesmo assim, entrou no léxico nacional para signi-ficar o creme à base de concentrado de tomate usado para aromatizar os alimentos. Que pena esse produto não ter o dom de aromatizar tam-bém a vida desenxabida de tanta gente, que faz em cada dia o que fez na véspera. Vida rotineira, vida repetida, sem surpresas, sem diferenças, sem novidades, uniforme e continuamente chata, que precisava bem de variar (ou seja, de ser temperada), nem que fosse à custa desse molho com origem na China de Confúcio. E que os americanos, mais tarde, muito mais tarde, como de costume, reformularam e industrializaram.



publicado por Irdea às 09:20
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS (10)

 

SEMEADOR

 

Ninguém colhe sem semear;

ou então, é preciso semear para colher.



publicado por Irdea às 00:22
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Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
FOTOS LEGENDADAS (47, UMA DÍVIDA DE GRATIDÃO)

 

Nova Lisboa tinha uma dívida de gratidão para com o seu fundador,

o General Norton de Matos: erigir-lhe uma estátua condigna,

homenageando assim quem fizera nascer do mato (portanto do nada) uma cidade

que se tornaria em breve a segunda mais importante da Colónia.

Tinha essa dívida e saldou-a por subscrição pública, cujos donativos a «Voz do Planalto»

foi anunciando ao longo dos anos. Na Praça Manuel Arriaga, levantou

um monumento imponente ao homenageado, que o Governador-Geral da altura,

o General da Força Aérea Venâncio Deslandes, inaugurou com solenidade e foguetório.

Convém lembrar, para que conste...

 

Francisco Bernardo,

in Fotos Recolhidas e Legendadas de uma Angola de Antigamente (obra inédita)



publicado por Irdea às 07:54
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